segunda-feira, 1 de abril de 2013

Episódio III

   Um gélido toque acordou Chad e a escuridão que o envolvia, transformou-se na luz fluorescente e esquizofrénica de um candeeiro de teto. A janela estava ligeiramente aberta e Chad conseguia ver que não era de dia. Quando tempo teria ficado ali deitado ? Quem o teria trazido para ali ?
   Levantou-se da desconfortável cama de ferro, fazendo com que o colchão duro rangesse. O barulho ecoou no quarto vazio. Deslocou-se para a porta e tentou abri-la. Trancada. Só depois reparou que tinha um cateter preso ao seu braço. Arrancou-o e olhou para o saco de líquido que estava pendurado ao lado da cama. Diazepam. Como estudante de enfermaria que era, soube exatamente do que se tratava. Um controlador de ansiedade. Mas porquê?
   Sentou-se na cama e tentou voltar atrás no tempo. A última coisa de que se lembrava era a casa de Tamylin. O seu corpo aberto sobre o balcão. O cheiro fétido da cozinha. O sangue que escorria. Lembrava-se do que sentiu. Do seu choque. E depois ? O que terá acontecido ?
   Levantou-se e gritou:
   -Alguém?
   Ouviu passos longínquos do outro lado da porta. Voltou a gritar. Os passos aproximavam-se. Gritou mais uma vez e bateu na porta quando os passos pararam do outro lado. Seguiu-se um momento de silêncio. Ouviu umas chaves. Uma corrente de adrenalina percorreu o seu sangue, e fez com que começasse a ficar ansioso. Pegou no puxador para apressar o processo, quando a pessoa do outro lado meteu a chave na porta. Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando ouviu um clack da chave a partir-se.
   Começou a bater na porta e a gritar:
   -Onde estou?! Digam-me! Por favor!
   Nada se ouviu do outro lado sem ser os passos atarefados a afastar-se novamente. A ansiedade tomou conta dele. Dirigiu-se à janela. Só aí reparou que depois da janela de vidro desfocado, estava uma série de grades. Janelas gradeadas. Que tipo de sítio seria ? Não era o Hospital.
   Ouviu o mar. Ouviu gaivotas. Ouviu as ondas. 
   Tentou abrir a janela para ver melhor mas estava encravada. O cheiro a maresia entrou com a brisa, pela brecha. Lembrou-se com nostalgia e frustração do sítio onde se deveria ter encontrado com Tamie. "Se eu não tivesse adormecido, nada disto teria acontecido" Pensou. Olhou em volta, não havia nada além da cama e do suporte do saco de Diazepam. Ouviu um estrondo lá fora e umas vozes masculinas. Muitas vozes. Os passos voltaram a aproximar-se e a pessoa voltou a aproximar-se da porta. 
   -O que se passa ? Onde estou ? Podem tirar-me daqui ? Tem um telemóvel que me empreste ? - Perguntou Chad impaciente, em direção à porta.
   -Mantenha a calma. Está tudo sob controlo, volte a deitar-se e meta o cateter. A calma é a chave.
   "Como é que ela sabia que eu tinha tirado o cateter?" Pensou. Deitou-se de barriga para cima.
   Só aí é que percebeu que não estava sozinho no quarto. 
   Uma câmara observava-o, presa no teto.

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